segunda-feira, 30 de abril de 2012

Bibliotecas sem sono


 http://youtu.be/G463Dx201jw
http://www.livrosminiatura.com  . projecto de João Lizardo  -)

Existem bibliotecas improváveis:
bibliotecas de caixas de fósforos
bibliotecas de brinquedos de madeira ou latão
bibliotecas de papel
Existem bibliotecas de livros do tamanho de um bago de milho
que pulsam na palma de uma mão.
Existem bibliotecas improváveis
as que se reinventam sem parar
as que ardem
as que crepitam mesmo nos dias mais frios.
Existem bibliotecas cheias de ar, vazias,
outras , cheias de risos, palmas.
Almas.
Ora casa, ora abrigo, porto de chegada e de partida
dos seus únicos senhorios: os leitores e os não leitores.
Algumas bibliotecas acreditam.
Viveram tantas histórias que estão condenadas a acreditar.
São de todas as mais raras.
Teimam em iluminar rumos
sinalizar o chão firme da cultura da palavra
da  boa palavra
como a saída para a construção do Homem Novo.
Por acreditarem tanto
que  um dia vai ser possível abraçar
todos os que habitam
esse lugar improvável,
reerguem-se permanentemente:
a cada ausência, a cada encantamento,
a cada riso de menino, a cada aplauso,
a cada poema lido ou cantado
a cada memória …
São bibliotecas sem sono.

                                                                                                                                                 Ao  Mestre

terça-feira, 24 de abril de 2012

De repente



Este ano as andorinhas demoraram a chegar.
e de repente
chegaram.
Agora sim
gorjeiam na janela.
Escuto-as sem entender.

Repetem velhos rituais.
As andorinhas sabem que só os rituais ajudam a preparar o tempo
o que passou e o que ainda virá.
As andorinhas sabem naturalmente

No final do Verão
um dia
de repente
darei conta que partiram

Aos beirais mudos
ao silêncio agitado
perguntarei:
- Voltarão?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CORTAR !!!! ?

Era uma vez um país desgovernado.Os Governos que o governaram, sempre foram composto por gente bem governada, que tomava todos os dias decisões bem governadas´e ninguém compreendia como é que, com governantes tão bem governados , o país estivesse naquela vergonha.
- Para tantos problemas no governo da Nação~, só há uma solução! – Anunciavam aos quatro ventos o primeiro , o segundo, o terceiro , o quarto poder , o quinto … todos a uma só voz: Cortar!!!! ( O poder nos países mal governados fala sempre uma voz. O de hoje e o de sempre.Partilham afinidades naturais, cumplicidades várias e o elevado sentido de missão.

Em todos os lugares a palavra ressoou imensa, percorrendo todos os poderes que tinham o poder de cortar. Ampliou-se por toda a estrutura e o país envergonhado deixou-se cortar inteiro. Uns confiantes, outros impotentes, uns incrédulos, outros indiferentes , enquanto meticulosamente os governantes no poder, se governavam.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Quase que aposto ...

" O editor da Teorema e a editora da Estrela Polar, assim como os dois gestores de marca, o da Dom Quixote e o da Asa, estão entre as mais de 30 pessoas de diversos sectores que o grupo editorial Leya está a despedir desde terça-feira, no Porto e em Lisboa, alegando extinção de postos de trabalho. " assim começava a notícia do Jornal Público, que escondia o nome de José Oliveira, como um dos dispensados.

Vai por bom caminho a edição em Portugal, quando dispensa editores do perfil e da qualidade de José Oliveira. Vai por bom caminho a Leya quando se dá ao luxo de prescindir do saber, da competência, da paixão , de um editor como o José Oliveira e... quase que aposto que esta extinção tem um sabor a revanchezinha, a acerto de contas, mascarada com as contingências dos novos mercados ... no que estas , as contigências , tem de mais abjecto . Um abraço para o José Oliveira , de quem trabalha em leitura pública e muito tem para lhe agradecer enquanto editor.
Um abraço de Beja e que o cante nos acompanhe.
http://youtu.be/AwPQ661_7ms

sábado, 7 de janeiro de 2012

deixar ir o coração...

Escuto notícias, leio jornais, vejo televisão. Pelos meus olhos desfila o lodaçal da crise, da dívida, os rumores maçónicos, os silêncios da Opus Dei, o jogos financeiros do grande capital, os arbítrios de decidirem sobre o nosso destino , não tendo para isso legitimidade. Vejo repetida, vezes sem fim, na mais perfeita impunidade, a promiscuidade da política, os negócios das grandes figuras, que hoje pensaram o pais quando eram governo, e hoje governam o pais a partir das grandes empresas…
Vejo as birras, as questiúnculas gratuitas, a inflexibilidade na negociação, dos poderes e das oposições. Quem agora é oposição critica, o antes fez quando foi governo. E quem é governo faz o que antes criticava quando era oposição. Todos andam esquecidos que a sua única razão de existir são as pessoas, todas as pessoas!
Às vezes apetece-nos gritar:
- Deixem-se de merdas e entendam-se, para ver se pomos esta Porra a funcionar!
Tomo alento e sigo o rumo daqueles, muitos, mas também cada vez menos, que mesmo assim continuam a fazer, a criar ... já tinha saudades de te escutar Zé Mário.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Escrever é enganar o tempo

Voltar é o último momento da viagem e gosto de o fazer lentamente. Tanto tempo fora, exige cuidados no regresso…. Não se pode regressar de supetão! Podemos não aguentar a emoção. Os golpes de vento, o frio.

Por cá, aparentemente, tudo está na mesma… No entanto nas muitas casas onde habito, as mulheres estão todas mais maduras e nas aldeias, o feminino que sempre foi o suporte das casas, pouco a pouco sai e ganha as ruas. É lenta esta mudança. Ninguém as vê, mas elas lá estão resistentes e na base da estrutura das pequenas comunidades. Entre muitas outras coisas, cuidam dos netos. Algumas contam, algumas cantam. Algumas lêem livros.
Na Trindade vive uma destas mulheres. Uma mulher leitora. Não sei muito sobre ela, mas sei que só ela conhece O LIVRO quase de cor. Herdou-o do pai, todo escrito a recortada caligrafia. O LIVRO a partir do qual ensaia o presépio da Trindade enquanto aqui lê um pedacinho da loa, ali canta a cantiga da cigana que ia adorar o menino, de vez enquanto lamenta, não ter mais gente a ajudar a fazer o Presépio, não ter um tocador.

Este auto de Natal, tão antigo, onde só entravam homens, hoje quase não os tem. Fazia-se na véspera de Natal, na rua, no largo. Fogueiras todas em volta e entrava a Loa. A aldeia enchia-se de povo preparado para escutar uma noite inteira e todos sabiam que graças a ele teriam o necessário para o almoço de Natal.

O LIVRO jaz sobre a mesa, envelhecido. Apenas ela é capaz de o tornar vivo quando o conta. Diz o livro, servindo de ponto e de modelo. Ela sabe qual é a cadência certa, o LIVRO não.
O livro não conta como tudo se fazia, não conta que as vestes eram feitas de saca e pano de camisa… Sem ela O LIVRO é letra morta. São as pessoas que dão sentido aos livros. Diria mesmo mais são as pessoas que dão sentido aos objectos culturais.

As viagens à memória são sempre instrutivas. Obrigam-nos a recordar o que fomos e a perceber que temos de olhar melhor para o que acontece perto de nós, como o auto de Natal da Trindade e tantos outros. Não por ser moda, mas porque o que ali vai acontece - dia 6 de Janeiro - O Presépio, nos diferencia e apesar de todas as crises, persiste. Resiste.

A afirmação de cada país, cidade, organização, de cada pessoa, constrói-se da sua capacidade de construir compromissos, entre deveres e direitos, entre responsabilidade e liberdade entre a produção e o lucro, entre tradição e contemporaneidade, mas sempre em torno das pessoas. As pessoas são sempre a solução, nunca o problema.

A afirmação de um mundo mais MUNDO, passará sempre pelo compromisso que permita que cada um de nós esteja individualmente melhor, porque todos vivemos melhor e mais inteiros. Estes são os meus votos para o ano que agora começa!
( in :Diário do Alentejo , Dez,2011.